Looping

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A procura da bio perfeita

Vergonha atávica de si na terceira pessoa e auto julgamento em looping

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Julia Ribeiro
out 04, 2025

Biografia. Bio. About me. Afinal, quem sou eu? Antes das redes sociais e aplicativos de paquera (alou gírias idosas!), acho que só pessoas públicas, palestrantes, famosos ou escritores precisavam se definir em poucas linhas.

Pessoas “normais” tinham um pomposo curriculum vitae. Tudo estava resolvido com “envio CV em anexo: Até que começamos a questionar se o que éramos, estava mesmo resumido naquelas linhas burocráticas. E nem sempre tão verdadeiras.

Quem nunca forçou a barra e colocou fluente em inglês ? E a canalhice de dizer que seu único defeito era o perfeccionismo? Aff.

Alev Neto

Sempre admirei os inventores de profissão, os exploradores do saber, os autodidatas em tudo. Invejo a segurança, ousadia e autoconhecimento deles.

Já pessoas indecisas e inseguras e/ou com um ascendente que não colabora escrevem, reescrevem e nunca estão satisfeitas com a sua bio. Nada é bom o suficiente. Nenhuma palavra te traduz , nenhum emoji te define.

Nas redes sociais, tem gente que encurta a tarefa e coloca um trecho de música e pronto. Problema resolvido.

Ah, e tem gente que é tão foda que foda-se a bio.

Muita gente acha que isso é uma over problematização.

Bem, eu não sou uma dessas pessoas.

Arrogante, excêntrico, too much, ui que pretensioso. Tedioso, falso modesto, pseudo-engraçadinho, despretensão calculada.

Pronto: um ciclo incansável de autojulgamento, autoboicote, uma vergonha atávica de si mesmo na terceira pessoa.

A minha crise da bio começou durante um curso de futurismo num passado distante. Atividade: defina para os colegas quem você é.

Frio na barriga, leve taquicardia de se apresentar em círculo para tantos olhos curiosos. O script tava pronto: nasci no rio, sou jornalista, trabalho na empresa tal e estou sempre em busca de “novos desafios” (argh).

Eis que ouvi a orientação para a resposta que me persegue (ainda bem!) desde então: tente responder quem você é sem dizer sua profissão, sem dizer onde se formou, a empresa que trabalha, esqueça o crachá ( e o diploma).

Também não vale dizer que é filha, mãe, sua nacionalidade, onde morou, sua condição física, seu gênero, suas escolhas alimentares.

O desespero me tomou: não sobrou nada pra dizer.

Ou sobrou tudo? Será que isso é a essência (palavra calhorda) de quem somos?

O que sobra de você quando os filhos saem de casa, quando o casamento acaba, quando você se muda, quando o RH te chama para falar sobre corte de custos e arrancam seu crachá? Para onde vai você quando uma doença rouba suas capacidades físicas? Quando você chega aos 40 e não se reconhece mais ?

Se o seu reflexo não está mais no espelho, onde ele foi parar?

Over informação, over sharing, over posting, over lives.

Ainda bem que a vida acontece quando estamos offline.

E é lá que descobrimos quem somos.

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“Manda sua bio em 3 linhas”:

V1: Jornalista e estrategista digital old school. Depois de um #looping365 ao redor do mundo, foi morar no campo e e voltou para a cidade. Entre plantar pés de tamarindo e escrever um livretinho “364 dias que não são Dia das Mães: um manifesto-desabafo para filhos desalmados” teve uma filha.

Seis anos depois, a crise existencial segue firme, agora sob o rótulo de “sobre a autora”.

É essa terceira pessoa-persona que continua editando, rascunhando e reescrevendo quem é.

Foto: Registro de 2019. Celular fora de moda.
Texto publicado em 2020 originalmente no Medium (quando ainda era um hype).

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